Se a Carapuça Servir, Use-a.
Amigos leitores: Em meu último livro pisei nos calos de algumas pesoas, que me enviaram cartas aborrecidas querendo saber se era a elas que eu me referia. Desta feita, para ajudá-los a economizar o valor do selo, começarei meu livro dizendo:
Se o importuna ou lhe apraz,
Com franqueza vou falar;
Se lhe serve a carapuça,
Faça o favor de usar.
Não pretendo ofender ninguém, mas se algum leitor se sentir atingido por alguma coisa destas páginas, que ele não o passe adiante mais aproveite para consertar seu próprio galinheiro. Pois que valor tem ler ou ouvir para outra pessoa? Nós não comemos nem bebemos pelos outros; por que lhes emprestaríamos nossos ouvidos e não a boca? Sendo assim, caro amigo, se encontrar alguma enxada nas premissas abaixo, capine o seu próprio jardim.
Estava eu outro dia conversando com Will Shepherd sobre um burrico já bem velho pertencente ao nosso patrão,e disse: "Ele está tão velho e teimoso que não vale o que come". "É", respondeu Will, "e o pior de tudo é que ele é tão traiçoeiro que , eu garanto, qualquer hora vai agredir alguém". Como dizem, as paredes tem ouvidos; estávamos falando em voz alta, porém não sabíamos que havia um par de ouvidos nos montes de feno. Ficamos estarrecidos ao ver Joe Scroggs aparecer de trás do feno, vermelho como um peru e louvo de raiva. Ele desatou a praguejar contra Will e eu como um gato atacado por um cachorro; estava realmente furioso, pronto para nos mostrar que era tão bom quanto qualquer um de nós ou, para ser preciso, tão bom quanto nós dois juntos. Se continuássemos falando dele daquele jeito, ele não saberia do que seria capaz. Tentei convencê-lo de que não pensávamos nele nem estávamos falando dele e que, portanto, deveria guardar todo aquele fôlego para esfriar seu mingau, pois ninguém ali queria ofendê-lo. Isto só fez com que ele me chamasse de mentiroso em brados mais altos. Meu amigo Will, estava indo embora tentando conter o riso; porém, quando percebeu que Scroggs ainda estava bufando de raiva, riu abertamente e disse: "Bem, Joe, nós estávamos falando de burros velhos e não de você; mas nunca mais poderei olhar aquele burro sem lembrar de Joe Scroggs". Joe acalmou os ânimos finalmente, porém deve ter sido difícil para ele voltar atrás. Will e eu fomos alegres cumprir nossos afazeres, pois o velho Joe revelara a verdade sobre se mesmo de uma vez por todas.
Will Shepherd, acima citado, às vezes jogava pesado comigo com seus comentários, mas isso me fez bem. É em parte graças ao seu estímulo que escrevi este novo livro, pois ele achava que eu andava ocioso; talvez tenha razão e talvez não. Will se esquece de que eu tenho outros peixes para fritar, e que a mente de um lavrador precisa descansar um pouco e não pode produzir uma safra a cada ano. É difícil fazer corda se o sisal acabou, panquecas sem a massa ou tortas sem recheio; igualmente achei difícil escrever mais quando já havia escrito tudo que sabia.
0 Comments:
Postar um comentário
Links to this post:
Criar um link
<< Home