Um Escravo ( C. H. Spurgeon). - Parte 1
"Mas não quereis vir a mim para terdes vida!" (Jo 5.40).
( Sermão pregado no dia 2 de dezembro de 1855)
Este texto é usado pelos arminianos como uma das suas grandes armas e freqüentemente descarregada com um barulho terrível contra os pobres cristãos chamdos calvinistas. Nesta manhã eu pretendo apontar a arma, ou melhor, virá-la contra os inimigos, porque ela nunca pertenceu a eles; jamais foi fabricada na forja deles. Pelo contrário, este texto intenciona ensinar a doutrina exatamente oposta àquela que eles sustentam.
Geralmente quano o texto é empregado, ele é dividido deste forma: primeiro, o homem tem uma vontade. Segundo, ele é inteiramente livre. Terceiro, os homens têm que querer por conta própria vir a Cristo, de outra maneira eles não serão salvos. Ora, nós não utilizaremos tais divisões, mas nos empenharemos em dar uma olhada no texto com mais precaução; e não porque existam nela as palavras "querer" ou "não querer", chegaremos a conclusão de que ele ensina a doutrina do livre-arbítrio.
LIVRE ARBÍTRIO - É SIMPLESMENTE RIDÍCULO.
Já foi provado além de toda controvérsia que o livre-arbítrio é uma tolice. A liberdade não pode pertencer ao arbítrio como a ponderação não pode pertencer à eletricidade. Elas são coisas completamente diferentes. Podemos crer em agente livre, porém o livre arbítrio é simplesmente ridículo. É bem conhecido de todos que a vontade é dirigida pelo entendimento, movida por motivos, conduzida por outros componentes da alma e considerada como algo secundário.
Tanto a filosofia como a religião, descartam de uma vez a idéia de livre-arbítrio; e eu vou tão longe quanto Martinho Lutero, em sua forte afirmação, onde ele diz: "se algum homem, de alguma maneira, atribuir a salvação ao livre-arbítrio do homem - mesmo a ínfima parte - nada sabe sobre a graça e não conheceu Jesus Cristo corretamente". Pode parecer uma declaração severa, todavida, aquele que em sua alma crê que o homem faz o seu próprio livre-arbítrio voltar-se para Deus, não pode ter sido instruído por Deus, pois esse é um dos primeiros princípios que nos é ensinado quando Deus começa Sua obra em nós: não temos nem vontade nem poder, posto que Ele concede ambos; porquanto Ele é o "Alfa e o Ômega" na salvação do homem.
SUMÁRIO.
Neste sermão nossos quatro pontos principais serão - primeiro, todo homem está morto, porque o texto diz: "Não quereis a mim para terdes vida". Segundo, há vida em Jesus Cristo - "...não quereis vir a mim para terdes vida". Terceiro, há vida em Cristo Jesus para todo aquele que vem recebê-la - "...não quereis vir a mim para terdes vida" - Isso implica em que todos que vão, terão vida. Quarto - e o sentido do texto é: ninguém por si mesmo jamais virá a Cristo, poiso texto diz: "...NÃO quereis vir a mim para terdes vida". Ora, amados, estou quase pronto a exclamar: será que os defensores do livre-arbítrio têm pouco conhecimento a ponto de desafiar a doutrina da inspiração? Estão distituídos de senso todos aqueles que negam a doutrina da graça? Têm se afastado tanto de Deus que torcem isto para provar o livre arbítrio onde o texto diz: "...NÃO QUEREIS vir a mim para terdes vida"?
NÃO HÁ VIDA NA MORTE.
1. Primeiramente, então, nosso texto implica em que OS HOMENS POR NATUREZA ESTÃO MORTOS. Ninguém precisa ir a procura da vida se já tem vida em si mesmo. O texto fala muito fortemente quando declara: "... não quereis vir a mim para terdes vida". Apesar de não dizê-lo explicitamente, ele afirma, com efeito, que os homens precisam de uma vida que não têm em si mesmos. Meus ouvintes, nós todos estamos mortos, a não ser que tenhamos sido gerados por uma viva esperança.
MORTE LEGAL - CONDENAÇÃO.
Todos nós estamos, por natureza, legalmente mortos: "no dia que dela comeres, certamente morrerás" - disse Deus a Adão; embora ele não tenha morrido fisicamente naquele momento ele morreu legalmente; isto quer dizer que a morte foi decretada contra ele. Tão logo como no Old Bailey, o juiz veste a capa preta e pronuncia a sentença, o homem é considerado morto pela lei. Talvez possa passar um antes dele ser trazido ao patíbulo para sofrer a sentença da lei, no entanto, a lei o considera um homem morto. É-lhe impossível fazer qualquer transação. Ele não pode herdar, nem legar seus bens; ele não é nada - é um homem morto. O país, de maneira alguma, o considera como vivo. Há uma eleição - não lhe é pedido seu voto porque ele é considerado legalmente morto. ele está trancado em sua cela de condenação e está morto. Ah, e vocês pecadores sem Deus, que nunca tiveram vida em Cristo, estão vivos nesta manhã, por adiamento, mas, será que não sabem que estão legalmente mortos; que Deus os considera como tais, que no dia que seu pai Adão comeu o fruto, e vocês próprios pecaram. Deus, o eterno juiz, colocou sobre Si o gorro preto e os condenou? Vocês falam poderosamente de sua própria posição, bondade e moralidade: onde estão elas? As Escrituras dizem que vocês "já estão condenados" - Não tem que esperar para serem condenados no dia do Juízo - ali será a execução da sentença - "já estão condenados" - No momento que pecaram, seus nomes foram escritos no livro negro da justiça; todos foram então sentenciados por Deus a morte, a não ser que tenham encontrado um substituto pelos seus pecados, na pessoa de Cristo.
O que pensariam se fossem a prisão e vissem o condenado sentado, rindo e feliz? Vocês diriam: "o homem é um tolo, pois ele está condenado e será executado; no entanto, quão alegre está". Ah, e quão tolo é o homem mundano que, enquanto a sentença está sendo registrada contra ele, vive em divertimento e alegria! Vocês pensam que a sentença de Deus é sem efeito? Pensam que seu pecado que está gravado com ponteiros de aço nas rochas para sempre é isento de horrores? Deus disse que vocês já estão condenados. Se pudessem tão-somente sentir isso, o amargor encheria as suas doces taças de gozo; suas danças parariam. O riso se extinguiria com um suspiro, se se lembrassem de que já estão condenados. Todos nós deveríamos chorar, se compreendêssemos seriamente que por natureza não temos vida aos olhos de Deus. Estamos realmente condenados; a morte está decretada contra nós, e somos considerados aos olhos de Deus agora tão mortos como se já estivéssemos lançados no inferno; somos condenados agora pelo pecado, embora ainda não estejamos sofrendo a penalidade, porém, ela está escrita contra nós. Por isso estamos legalmente mortos. Não podemos encontrar vida, a não ser que encontremos vida legal na pessoa de Cristo.
MORTE ESPIRITUAL - UM CADÁVER COMINHANDO.
Mas, além de estarmos legalmente mortos, estamos também espiritualmente mortos. Isso, porque a sentença não somente foi lavrada no livro, mas também no coração; e entrou na consciência, operou na alma, no julgamento, na imaginação e em tudo. "...por que no dia em dela comeres, certamente morrerás", não somente foi cumprido pela sentença decretada, mas por algo que aconteceu em Adão. Assim como num dado momento futuro, quando este corpo morrer, o sangue parará, o pulso cessará e a respiração não virá mais pelos pulmões, assim também no dia em que Adão comeu do fruto, sua alma morreu; sua imaginação perdeu se poder de scender as coisas celestiais e ver o céu, sua vontade perdeu para sempre seu poder de escolher aquilo que é bom, seu julgamento perdeu toda a sua habilidade de julgar entre o certo e o errado decidida e infalivelmente, ainda assim algo foi retido na consciência; sua memória tornou-se corrompida, propensa a reter coisas pecaminosas, e a deixar as coisas virtuosas deslizarem para longe; todo poder que ele tinha cessou quanto a sua vitalidade moral. A bondade era a vitalidade do seu poder - isso se foi. Virtude, santidade, integridade; estas era a vida do homem; e quando elas se foram o homem tornou-se morto. E agora, todo homem, no que concerne as coisas espirituais, está "morto em delitos em pecados". A alma não está menos morta num homem carnal do que o corpo quando depositado no túmulo; ela está real e positivamente morta - não se trata de uma meráfora, pois Paulo não fala por metáforas quando afirma: "Ele vos vivificou estando vós mortos nos vossos delitos e pecados".
Mas, meus ouvintes, oxalá eu pudesse pregar tudo aos seus corações a respeito desse assunto. Foi suficientemente ruim quando eu descrevi a morte como tendo de fato acontecido nos seus corações. Vocês não são o que eram antes; não são o que eram em Adão, nem o que foram gerados. O homem foi criado puro e santo. Vocês não são as criaturas perfeitas das quais alguns se gloriam, todos são totalmente caídos, todos se desviaram do caminho, tornando-se corruptos e sujos. Oh, não ouçam o canto da sereia daqueles que falam da dignidade moral e da elevado estado de vocês no tocante a salvação. Vocês não são perfeitos; a palavra tão forte - "ruína" - está escrita em seus corações e a morte está selada em seus espíritos.
Não imagine, ó homem moral, que poderá ficar de pé diante de Deus em sua moralidade, pois você não é mais que uma carcaça embalsamada em legalismo, um defunto enfeitado em finas roupas, porém ainda corrupto na presença de Deus. E não pense, ó possuidor de religião natural, que poderá pelo seu poder e força fazer-se aceitável a Deus. Ó homem, você está morto e poderá vestir a morte gloriosamente como quiser, porém, ainda assim, isso seria uma farsa solene. Ali está a rainha Cleópatra - coloque sobre sua cabeça a coroa, vista-a com mantos reais, deixe-a sentar com pompa, mas que calafrio você sente quando passa por ela. Hoje ela é bela, até na sua morte - mas quão terrível é ficar em pé junto desse corpo, mesmo que seja de uma rainha morta, tão célebre pela sua majestosa beleza! Portanto, você poderá ser glorioso em sua beleza, agradável, maravilhoso e bondoso! Você coloca a coroa da honestidade sobre a sua cabeça, usando todas as vestes de honra, mas a não ser que Deus o tenha vivificado, ó homem, a não ser que o Espírito tenha tratado com sua alma, você é tão detestável aos olhos de Deus como o corpo frio lhe é repugnante. Você não escolheria viver com um morto assentado a sua mesa. E Deus não tem prazer em que você esteja diante de Seus olhos. Ele se ira com você todos os dias, pois esté em pecado - está morto. Oh, creia nisso, leve-o a sério! Aproprie-se disso, pois é bem verdade que está morto, tanto espiritualmente como legalmente.
MORTE ETERNA - INFERNO
O terceiro tipo de morte é a consumação dos outros dois. É a morte eterna. A execução da sentença legal; é a consumação da morte espiritual. A morte eterna é a morte da alma; isso acontece depois da morte física, após a alma ter saído do corpo. Se a morte legal é terrível por causa das suas conseqüências; e se a morte espiritual é horrível, é por causa daquilo que acontecerá depois. As duas mortes da qual falamos são as raízes, mas a morte que advirá é a árvore em plena frutificação.
Oh, se eu tivesse palavras para descrever a você neste momento o que é a morte eterna. A alma compareceu diante do seu Criador; o livro foi aberto; a sentença foi declarada: "apartai-vos malditos" - O universo foi sacudido, e tornou as próprias galáxias obscurecidas com a desaprovação do Criador; a alma se foi as profundezas onde habitará com outras no morte eterna. Oh, quão terrível é a sua posição agora. Seu leito é um leito de chamas; as visões que ela tem são horrendas, horripilam-na; os sons que ouve são gritos, lamentações choros, grunhidos; tudo que o seu corpo conhece é a imposição de dores lancinantes! Ele tem o inexpremível infortúnio da miséria não mitigada. A alma olha pra baixo com medo e pavor; o remorso tomou posse dela. Ela olha pra sua direita, e as paredes são inflexíveis da ruína e mantêm dentro dos limites da tortura. Olha para sua esquerda, e ali o baluarte de forgo ardente impede a escalada de qualquer imaginando escape. Olha para dentro de si a ali procura por consolação, mas um verme torturante já penetrou nela. Ela olha em volta - não tem amigos que a ajudem, nem consoladores, e sim atormentadores em abundância. Não conhece a esperança da libertação; já ouviu o eterno ferrolho do destino fechando a porta da terrível prisão, e viu Deus tomar as chaves e jogá-la nas profundezas da eternidade para nuncamais ser achada. Sem esperança, desconhece escape, não conjectura libertação; suspira pelo fim, mas a morte é por demais adversário para alí estar; deseja ardentemente que a não existência a possa tragar, mas esta morte eterna é pior do que o aniquilamento. Anseia pelo extermínio como trabalhador pelo seu dia de descanso; deseja profundamente que possa ser engolida pelo nada, assim como o escravo da galé deseja sua liberdade - a qual nunca chega. Está eternamente morta. Quando a eternidade tiver dado incontáveis voltas a alma perdida ainda estará morta. "Para todo o sempre" - não conhecerá fim; a eternidade não pode ser soletrada a não ser na eternidade. No entanto, a alma vê escrito sobre a sua cabeça - "és maldita para sempre" - Ela ouve gritos que serão perpétuos, vê chamas que são inextenguíveis; conhece dores que não terão alívio; ouve uma sentença que não rege como um trovão da terra que logo cessa - porém, continua sempre e sempre, retinindo os ecos da eternidade - fazendo milhares de anos tremer outra vez com o terrível estrondo do seu pavoroso ruído: "Apartai! Apartai! Apartai malditos"! Isto é na verdade a morte eterna.
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